“Minha vida virou um inferno”, diz Guido Mantega sobre delação de Marcelo Odebrecht

“Minha vida virou um inferno”, diz Guido Mantega sobre delação de Marcelo Odebrecht

O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega afirmou em entrevista a Folha de São Paulo “que delatores como Marcelo Odebrecht criaram “ficções” para conseguir fechar delação premiada, inventando histórias “inverossímeis” e sem provas”.

Segundo Mantega, que foi Ministro da Fazenda no período de 2006 a 2014, ele “estava atrapalhando” os planos do empreiteiro, em 2009, ao defender o veto a uma lei que dava à Odebrecht anistia sobre débitos tributários.

O ex-ministro que enfrenta um tratamento contra um câncer no intestino afirmou que tem medo de ser preso e espera que “a Justiça faça justiça”.

Leia alguns trechos da entrevista:

Folha – O senhor foi preso no ano passado, acusado de ter pedido ao empresário Eike Batista R$ 5 milhões para saldar dívidas de campanha.

Guido MantegaEu fui preso e fui solto em seguida. Depois disso, nunca mais fui chamado [pelas autoridades].

Minha mulher, Eliane estava indo para a sala cirúrgica. Liguei para a minha irmã, “alguém tem que vir aqui ficar com ela”.

“Aí me avisaram que era mandado de prisão”. O delegado da PF [que comandou a operação] falou “faz a mala, reúne as coisas”. Sabe o que é uma entrada da polícia às 6h da manhã na sua casa, inesperadamente? É um choque porque eles pegam testemunhas entre os vizinhos, pegaram até na padaria. É uma desmoralização. Você imagina o vexame, na sua casa, um monte de jornalista, “tá sendo preso“.

O juiz Sergio Moro acabou revogando a prisão. Ao meio-dia, o delegado diz “acho que teremos boa notícia. Você vai ser solto”.

Nessa época o senhor quase saiu do governo, não é?

Pois é. Deveria ter saído. Teria sido bom para mim. Ou pelo menos para a família. Não existiria nada disso. Mas não dá para recuperar o leite derramado.

Delatores relatam que, no período, houve negociações com o senhor para doação de dinheiro em troca de benefícios do governo. Começa por Emílio Odebrecht, que diz ter pedido a Lula que desse “um alô” ao senhor para destravar um Refis [programa que permite às empresas regularizarem dívidas com tributos].

“Eu estava atrapalhando os planos deles. Eu não estava ajudando. Eu tenho que explicar e vai ficar tudo claro”.

Em 1969, uma lei permitiu que as empresas exportadoras se creditassem de IPI [Imposto Sobre Produtos Industrializados], para estimular as exportações. Esse benefício deveria vigorar até 1990. Mas elas recorriam à Justiça e ganhavam, usufruindo do benefício até os anos 2000. Em 2007, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) julgou uma ação validando o crédito apenas até 1990.

O pessoal [empresários] ficou desesperado. Eles estavam aproveitando créditos há 17 anos e teriam que devolver tudo com multa e correção. Procuraram o governo: “Se tivermos que pagar, vamos quebrar”.

Eles queriam uma lei que reconhecesse os créditos. Uma anistia. E fizeram essa lei: em 2009, colocaram uma emenda numa medida provisória do Minha Casa Minha Vida, no Senado. Articularam apoios, governadores escreveram a Lula para que ele não vetasse a emenda. E o chato do ministro da Fazenda [referindo-se a si mesmo] defendeu o veto.

Mas por que ele, que se mentir perde os benefícios de uma delação premiada, inventaria isso contra o senhor?

“Porque, para você conseguir uma delação, tem que entregar pessoas do alto escalão do governo. Um ou dois presidentes [da República] e um ou dois ministros. De certa forma é uma exigência. E aí fala do ministro sem provas. Porque não faz sentido essa questão do Refis”.

Ele fala que passou a ter uma agenda intensa com o senhor. E que o senhor teria dito que se criou uma expectativa de colaboração de R$ 100 milhões para campanhas.

“Tivemos inúmeras reuniões sobre várias questões. De fato, em algumas delas, ele manifestou o desejo de contribuir. Partiu dele. Havia certa animosidade entre ele e a Dilma. O Marcelo foi derrotado várias vezes e não gostava do governo. Eu acho que queria sinalizar para a Dilma que estava ajudando”.

E como o senhor reagiu?

Eu falei: “Acho bom que você contribua, desde que oficialmente e pelos canais competentes. Não sou eu que trato dessas questões“.

Ele afirma que o senhor escrevia num papel “V está precisando”. V seria João Vaccari, então tesoureiro do PT. Cita ainda pagamentos para o marqueteiro João Santana.

“Se eu expus isso num papel, por que ele não trouxe o papel? Porque não tem prova nenhuma. O que ele fala não tem sentido e não tem prova”.

Quais foram os impactos da prisão e das denúncias?

Eu me sinto terrível porque minha reputação foi colocada por água abaixo. A repercussão foi péssima, péssima. passei a ter problemas em restaurantes, no hospital. Não posso ter uma vida normal. É uma humilhação ser chamado de ladrão. Eu poderia ter começado a dar palestras, consultorias. Criei um nome lá fora, fiz o Brasil ser respeitado. E acabei jogado nessa vala. A essa altura dos acontecimentos, depois de trabalhar tantos anos para o governo, depois de ter tantos resultados, eu não esperava. Realmente eu não esperava”.

E o senhor teme algum dia ser condenado e preso, desta vez para cumprir pena?

Sim, tenho temor. Eu sou a principal pessoa que cuida da minha mulher, que dá sustentação psicológica para ela. Temo o que aconteceria com ela se eu fosse preso. Se você olhar as acusações, as provas, elas são frágeis, não se sustentam. Eu espero que a Justiça faça justiça”.

mudancadeparadigmas.com

 

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